Lutero e o Antissemitismo
A relação entre Martinho Lutero e a questão judaica é complexa e muitas vezes distorcida por análises simplistas. A pergunta mais comum é se Lutero foi antissemita. Antes de te responder isso preciso dizer que neste texto você vai encontrar um breve resumo da mudança de posição de Lutero sobre esse assunto, recomendação de podcasts para aprofundar e ao final a literatura mais atual sobre o assunto.
Eu mesmo mudei minha posição sobre como interpretar os textos de Lutero, mesmo sendo sempre crítico aos textos sobre os judeus do reformador. Minha primeira posição sobre o assunto foi de que Lutero era apenas anti-judaico, isto é, contra aspectos da religião e não antissemita, contra o povo judeu. Hoje penso diferente. Acredito que a posição de Lutero é antissemita, mesmo que o termo seja anacrônico quando aplicado ao reformador.
Se você quer entender os argumentos para a primeira posição aqui, ouça aqui neste BTCast:
Ouça aqui: BTCast 123 - Lutero no banco dos réus
1. O Lutero jovem e sua visão positiva dos Judeus
No início de sua carreira, Lutero expressou uma certa simpatia pelos judeus, esperançoso de que eles pudessem se converter ao cristianismo. Seu primeiro escrito relevante, “Dass Jesus Christ ein geborener Jude sei” (1523) [Que Jesus Cristo nasceu judeu], demonstra um tom conciliatório e uma tentativa de atrair os judeus à fé cristã. Nesse contexto, ele afirmou:
“Os judeus, porém, são do sangue de Cristo; nós somos cunhados e estrangeiros, eles são amigos de sangue, primos e irmãos de nosso Senhor”. (Martin Luther, WA 11, 314-316)
2. A Mudança de Posição de Lutero
Entretanto, a partir de meados da década de 1530, a atitude de Lutero em relação aos judeus mudou drasticamente. A decepção com a falta de conversões, juntamente com influências políticas e sociais, levou a uma postura cada vez mais hostil. A mudança é evidente em escritos como “Von den Juden und ihren Lügen” (1543) [Dos judeus e suas mentiras] e “Vom Schem Hamphoras und vom Geschlecht Christi” (1543) [Sobre Schem Hamphoras e da descendência de Cristo], onde Lutero defende medidas severas contra os judeus.
Em “Vom Schem Hamphoras” Lutero faz uma alusão a escultura presente na igreja da cidade e comenta:
“Aqui na nossa igreja em Wittenberg está uma porca esculpida em pedra. Jovens porcos e judeus estão se amamentando dela. Atrás da porca, um rabino está curvado sobre a porca, levantando a sua perna direita, segurando a cauda ao alto e olhando intensamente sob o rabo para dentro do Talmud, como se estivesse lendo algo intenso ou extraordinário, que é certamente o lugar onde eles pegam suas Shemhamphoras.” (Wolffsohn, Michael, 1993. Eternal Guilt?: Forty Years of German-Jewish-Israeli Relations. Columbia University Press, p. 194).
Schem Hamphoras. Relevo de uma porca dando de mamar para judeus na igreja da cidade de Wittenberg, Alemanha.
A minha postura mais atual e crítica aos textos de Lutero, onde defendo que ele tem uma posição antissemita, eu apresento aqui neste outro episódio:
3. Escritos Tardios e Hostilidade Crescente: A questão do antissemitismo
Os escritos tardios de Lutero, em particular, são notórios por sua virulência. “Von den Juden und ihren Lügen” é um exemplo extremo, no qual Lutero acusa os judeus de blasfêmia e incitações contra Cristo. Ele propõe ações drásticas, como a destruição de sinagogas e a expulsão dos judeus. Lutero escreveu:
“Primeiro: Que se incendeiem suas sinagogas, e, quem puder, jogue enxofre e piche… Que lhes seja proibido… de louvar a Deus, dar-lhe graças, orar, ensinar publicamente entre nós e em nosso país”. (Martin Luther, WA 53, 417ss)
Essa virulência não se limitava apenas a críticas teológicas, mas também a medidas políticas coercitivas, refletindo uma transição de uma política de tolerância para uma de expulsão e perseguição.
Lutero também escreveu “Wider die Sabbater an einen guten Freund” (1538) [A um bom amigo contra os sabatistas], onde alegava que judeus na Morávia estavam convertendo cristãos ao judaísmo, embora não haja evidências históricas para essas atividades missionárias judaicas. Esse escrito parece ter servido como um meio para justificar uma política anti-judaica mais severa nos territórios protestantes (cf. Kaufmann, 2005, p. 526-532).
4. Recepção e Influência dos Escritos de Lutero
Os escritos de Lutero sobre os judeus tiveram um impacto significativo e duradouro. Durante a Reforma, eles se tornaram uma referência para discursos teológicos protestantes sobre o judaísmo. Na Alemanha, especialmente no contexto do nacional-socialismo, seus textos tardios foram usados para justificar atitudes antissemitas e a adaptação cristã ao regime nazista. O debate acadêmico continua sobre a extensão em que os escritos de Lutero contribuíram para o antissemitismo moderno e o genocídio.
A relação de Lutero com os judeus é um testemunho complexo e multifacetado da interação entre teologia, política e sociedade. Seu legado, marcado por escritos que vão da tentativa de conciliação à incitação de violência, continua a ser objeto de estudo e debate, refletindo a profundidade e as contradições de suas visões sobre o judaísmo.
🔍 Materiais para sua pesquisa
Se você quer ir mais fundo neste assunto separei aqui alguns recursos:
- 📚 Comece pelo verbete “Judaísmo” no Dicionário de Lutero.
- 📄 Há um bom artigo de Walter Altmann resumindo os escritos de Lutero.
- 📕 O livro mais importante e atual nesse assunto é de Thomas Kaufmann, da Universidade de Göttingen e um dos mais importantes scholars de Lutero da atualidade. O original em alemão se chama Luthers Juden, mas o livro já conta com tradução para o inglês em Luther’s Jews.
- 📗 Um outro livro mais acessível, porém muito valioso - e que tem no Perlego para você ler - é o de Christopher J. Probst, Fellow do United States Holocaust Memorial Museum. Se chama Demonizing the Jews: Luther and the Protestant Church in Nazi Germany.
🎓 Para quem quer pesquisar academicamente
Separei os artigos mais recentes sobre o assunto:
- Sommer, W., & Herzner, V. (2022). Luther und die Juden: Ungewohnte Zugänge zu einem alten Thema. Zeitschrift für bayerische Kirchengeschichte, 91, 350-355.
- Oelschläger, U. (2021). Die Juden und Luther: Ein Wechsel der Perspektive unter besonderer Berücksichtigung jüdischer Gelehrter. Ebernburg-Hefte, 55, 115-125.
- Isaac, M. (2018). Luther, Juden und Palästina. Religionen für Gerechtigkeit in Palästina-Israel, 28-40.
- Geck, A. (2018). Luther und die Juden: Ist das die „Schattenseite” der Reformation? Das “Dreifachjubiläum” im Evangelischen Kirchenkreis Recklinghausen, 149-64.
- Töllner, A. (2018). Luther und die Juden: Eine Bilanz. Weitergehen, 188-199.
- Wursten, D. (2017). Luthers Juden. Church history and religious culture, 97(3/4), 467-468.
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