O próximo não se escolhe

O próximo não se escolhe


Foz do Iguaçu, uma terça-feira qualquer, pouco depois das 14h, 25 anos atrás. O calor era aquele típico de verão que parece pesar nos ombros. Eu tinha acabado de descer do ônibus e minha cabeça era um emaranhado de pensamentos aleatórios, tarefas de aula e o repertório das músicas do culto de domingo. Sabe quando você está tão mergulhado no “amanhã” que o “agora” se torna um borrão irrelevante?

Foi quando o som rasgou o ar: o zunido de um freio gasto e o grito agudo de uma buzina. Em slow motion, como em uma cena de Matrix, vi a moto chocar-se contra o metal de um carro que invadiu a avenida. O motociclista voou. O asfalto, que não tem nada de colchão de atletismo, o recebeu com a dureza da realidade.

Minhas pernas tremeram. O pânico apaga até o número da emergência da memória. Mas algo me empurrou até ele. Suas feridas e sua dor gritavam por socorro. Naquele instante, minha agenda, meus ensaios e tarefas importantes evaporaram. O que era urgente agora era o outro.

Curioso é que eu não estava sozinho. Outras pessoas desceram do ônibus comigo, viram o que eu vi, mas seguiram o fluxo: “É só mais um acidente, tenho serviço a fazer”. O que nos diferencia nesses segundos cruciais?

##A Teologia da Conveniência Essa cena me faz pensar no diálogo de Jesus com aquele mestre da lei em Lucas 10.25-37. O sujeito era um “cara bíblico”, dominava a ortodoxia e o Shemá Israel não saia da sua boca. Ele sabia que precisava amar a Deus e ao próximo, mas queria uma nota de rodapé, uma “pegadinha teológica” para limitar sua responsabilidade. Mas, no fundo, ele queria que o próximo fosse alguém conveniente: a família, os amigos da igreja, o pessoal da juventude. Alguém que não atrapalhasse o cronograma.

Jesus, então, conta a parábola que todos conhecemos, mas que raramente sentimos nas entranhas. Um homem é deixado quase morto na estrada perigosa entre Jerusalém e Jericó.

O sacerdote e o levita passam por ele. Eles não são vilões de desenho animado; eles são religiosos ocupados com as “coisas de Deus”. Ajudar aquele homem custaria caro: impureza ritual, tempo, talvez até o sustento da família. Eles preferiram a justiça da letra fria à misericórdia que suja as mãos com sangue alheio. Para eles, a vida com Deus se resumia ao ritual da religião institucional, não tinha relação alguma com a compaixão vivida.

A Justiça como Fidelidade

Aí entra o Samaritano. Ele também tinha negócios, montaria, agenda e preocupações. Mas ele se permitiu ser impactado “nas vísceras”.

Na Bíblia, justiça é explicada, muitas vezes, como fidelidade a um relacionamento. Por exemplo, Davi e Jonatas. Ele eram tão amigos, que a fidelidade de Davi se mostrou mesmo depois da morte do amigo. Davi deu ao filho de Jonatas, Mefibosete, todos os bens que pertenciam ao seu pai, e ainda o direito de participar da corte do reinado de Davi. Davi foi fiel, Davi foi justo – e fez justiça por causa de um relacionamento de amizade!

De forma análoga o samaritano faz justiça com o homem desfalecido porque é fiel a um relacionamento iniciado no instante em que bate o olho naquele que sofre.

Ao sentir que é sua responsabilidade ele dá inicio a um relacionamento que tem a fidelidade humana ao humano como base. Oswald Bayer interpretando Hamann chama isto de “alocução à criatura através da criatura”. Deus fala conosco no grito do sofrimento do próximo. No próximo Deus nos chama a sermos fieis a Ele. É por esta fidelidade vivida, que o samaritano passa a ser justo aos olhos do homem que está sofrendo. A sua justiça é superior à justiça do sacerdote e do levita, a ponto de manter-se fiel para com o homem assaltado até que ele fique são.

O Samaritano foi justo porque foi fiel ao relacionamento que nasceu no instante em que seus olhos encontraram o sofrimento do outro. Ele não seguiu uma regra; ele seguiu um clamor. Ele rasgou suas próprias vestes para fazer curativos e gastou seu próprio vinho e óleo.

No limite da reflexão, o Bom Samaritano é o próprio Cristo. Ele deixou a eternidade para se ocupar com as nossas feridas abertas pelo pecado. Ele não esperou o amanhã; para Ele, cada segundo da nossa miséria era crucial

Jesus, o bom samaritano

Por isto Jesus Cristo se limita em sua eternidade assumindo a finitude do nosso tempo. Cristo Deus eterno, nasce como ser humano, que é passageiro, mortal, que é frágil. O filósofo Lévinas ensina que o bem e o sofrimento são as únicas formas de tornar visível o invisível. No sofrimento do homem desvalido, que no texto indica toda a humanidade perdida e moída pela injustiça e pecado, experimenta a justiça invisível de Deus de forma concreta por um ato de Misericórdia: Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores. Sem merecimento aquele homem à beira do caminho recebe socorro.

Deus é fiel, mas para quem nós somos fidelidade de Deus? Para quem nós somos Cristo hoje?

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