Sabor café, pouco de Deus

Sabor café, pouco de Deus


Já faz algum tempo que se encontra quase qualquer coisa nas prateleiras de uma farmácia. Aquilo que parece ser sinônimo de saúde pode caber ali. Outro dia reparei que até aqueles livros devocionais da moda estão à venda nesses lugares. Confesso que não imaginei esse cenário. Você compra um remédio para o corpo doente e leva junto algo que, em tese, faria bem para a alma.

Eu poderia citar outros espaços onde hoje se vendem livros com propostas de espiritualidade — e inclusive bons livros cristãos. Mas você provavelmente já percebeu: o tema da espiritualidade tornou-se onipresente. E isso é, ao mesmo tempo, algo bom e profundamente confuso.

Observe as redes sociais. Se você seguir um ou dois perfis cristãos, em pouco tempo seu feed será inundado por influenciadores. Às vezes, surgem boas surpresas: pessoas sérias, conteúdos edificantes, reflexões honestas. Mas, na maioria das vezes, é apenas mais do mesmo. Você rola o feed infinito e, entre um meme engraçado, conteúdos aleatórios e algum post cristão que parece edificante, acaba permanecendo ali por mais tempo do que pretendia.

Quando percebe, passaram-se trinta minutos — ou mais. Você entrou para matar um tempo - vamos falar a verdade, ok? - no caminho encontrou algo bom e útil, mas saiu frustrado, com a cabeça até meio zonza e com a sensação de ter perdido tempo antes de retornar às tarefas do dia.

Os conteúdos rápidos, feitos para que você fique mais tempo nas plataformas como Instagram e TikTok, podem gerar algumas boas risadas, um e outro insight edificante. Mas o resultado final é sempre raso e fraco.

Vivemos num tempo de excesso: excesso de conteúdos (nem todos bons ou formadores), excesso de vozes (nem todas com real autoridade), além de uma infinidade de métodos e promessas espirituais que garantem fazer você aprender mais, orar mais, viver melhor e se tornar uma pessoa “mais espiritual”.

De acordo com o relatório da GWI de outubro de 2026 o brasileiro gasta em média 53 horas e meia na internet por semana. Isto no coloca no quarto lugar global de tempo gasto na internet.

Eu gostaria de dizer que isto é devido ao trabalho, ou alguma necessidade real. Mas como atuo prestando consultorias e treinamentos para pastores e igrejas na área de comunicação digital, percebo que é um problema mais grave. Em um treinamento questionei onde a senhoras da melhor idade da igreja mais gasta tempo hoje. Se você imaginou que era em oração, sinto lhe informar que os pastores detectaram que as conversas das nossas irmãs mais experientes gira em torno do que elas viram no TikTok. A estatística diz que as pessoas idosas utilizam mais o Facebook, porém também entre esta população a rede de vídeos rápidos tem se tornado popular.

Outro dia ouvi uma senhora que conheço queixando-se de dores no braço. Poderia ser principio de infarto, não fosse o fato de que ela consome redes sociais deitada na cama. Naquela posição sua musculatura já mais fragilizada é muito exigida. No outro dia ela precisa de um medicamento para a dor.

Os excessos nas redes, no entretenimento e até mesmo nas ofertas de conteúdo cristão não estão nos tornando pessoas mais sabias. E para piorar, já ouvi de vários pastores que nossos idosos já não podem mais ser considerados os sábios da igreja, como foi no passado.1

Porém não quero apontar o dedo para os outros. Preciso olhar para mim mesmo, sondar o meu coração e encontrar as raízes deste problema.

Quantas vezes meus filhos já me pediram algo e não prestei atenção por causa do celular ou do trabalho no computador? Como alguém que faz muito home-office, parece quase impossível separar trabalho dos momentos em família. Mensagens que chegam a noite, finais de semana e nas férias sempre exigindo uma resposta imediata. Tudo parece urgente, menos que está ali ao nosso lado.

Mas a pergunta não deveria ser sobre o que é urgente, mas sobre o que é necessário.

Isto me lembra a história de Jesus com Marta e Maria. Aquelas duas irmãs ansiavam a visita de Jesus. Cada uma se prepara para aquele momento a seu próprio modo. Enquanto uma organiza, arruma e ordena todas as coisas para que o ambiente seja o mais aprazível e propicio para aquela visita, a outra apenas deleita-se na possiblidade de receber o mestre em sua casa. A história não é sobre se você deve ou não arrumas a sua própria cama e deixar sua vida em ordem - e eu sou da opinião que você deve, então não use esse texto pra dizer que a bagunça é ordenada por Jesus.

Este encontro é sobre reconhecer as prioridades que se apresentam à nossa frente. Na cultura judaica dos tempos de Jesus a hospitalidade era uma das virtudes mais esperadas das pessoas. Isto porque o povo de Israel tinha sido estrangeiro no Egito, e em inúmeras situações durante o Êxodo a hospitalidade lhe foi negada. Como um povo chamado a ser luz entre as nações, o estrangeiro, o órfão e a viúva sempre deveriam encontrar espaço em Israel. Um quarto de visitas sempre deveria estar à disposição e a mesa das casas sempre aberta à possibilidade de receber alguém. É assim que a viúva de Sarepta recebeu o profeta Elias e vivenciou grandes milagres em sua casa.

Marta estava preocupada em exercer hospitalidade. Ela não estava atarefada de mais no sentido moderno e consumista. Sua preocupação era em servir Jesus da melhor forma, como se deve servir a um mestre, profeta e messias em sua casa. Nenhum ato poderia ser maior, neste momento, do que ser hospitaleira.

No entanto Jesus questiona o momento em que a hospitalidade deve ser praticada. Ele não censura ela pelo seu ato de servir, mas pela escolha do momento. Aquela era a hora de ouvir a Jesus, e isto é mais importante que qualquer outra coisa.

Me pergunto se estamos hoje discernindo os momentos em que devemos parar para ouvir a Jesus? Ou estamos ocupados de mais buscando demonstrar os valores e as virtudes que nossa sociedade considera importantes, tal como Marta fez na sua época?

Um destes valores atuais que constantemente ouço na boca de cristãos é a intencionalidade. Em si mesmo, um valor elogiável. Eu realmente acredito que devemos buscar fazer as coisas com intenção, e com a melhor delas, que a intenção de amar ao próximo.

No entanto nenhum valor é neutro. Também a intencionalidade, como entendida hoje, tem sua história. Ela está ligada à filosofia de Franz Brentano, um psiquiatra do século XIX que entendia que os atos da nossa consciência sempre se dirige para algo. Sempre amamos algo/alguém. Sempre queremos algo. Sempre pensamento sobre alguma coisa.

Brentano reelabora, em certo sentido, o tema da interioridade da vida humana, tal como ele aparece no romantismo alemão do século XVIII. Tudo que é verdadeiro se origina e tem sua fundamentação na vida interior.

Desta forma o sentido dos nossos atos estaria inteiramente dentro de nós. Se as intenções que direcionam nossos atos são boas, então nossos atos devem ser bons. Isto pode soar correto, no entanto esconde um problema. A concepção do que é a vida humana, do que realmente importa nesta vida e de como escolhemos o que é verdadeiro, justo e bom, está dentro de nós e pode ser encontrada por meio da arte, da contemplação interior e do fluxo de vida que conecta todos os que estão não se deixam guiar pela vida convencional, pautada por tradições e formas exteriores.

Infelizmente, só intencionalidade não basta para nos levar à verdadeira profundidade, nos desvia para o subjetivismo romântico.

Há uma busca sincera e verdadeira por sentido e profundidade. Não se trata de superficialidade voluntária. Percebo isso claramente como professor, em inúmeros cursos ministrados tanto em igrejas quanto na faculdade. A maior demanda que recebemos hoje não é por fórmulas prontas ou promessas milagrosas, mas por uma interpretação bíblica responsável, com fundamentos históricos e teológicos seguros. Muitas pessoas estão cansadas de leituras excessivamente particulares, subjetivas e, infelizmente, algumas vezes manipuladoras da Escritura.

O paradoxo é evidente: nunca houve tanto interesse por espiritualidade cristã e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil discernir o que de fato edifica. Em vez de formação profunda, vemos consumo rápido. Em vez de discernimento, repetição. Em vez de fé enraizada, experiências passageiras.

Diante disso, a pergunta que se impõe não é se as pessoas ainda buscam a Deus, mas como auxiliá-las a encontrar sentido e a tomar decisões conscientes em sua própria jornada com Deus, num universo cristão tão saturado, fragmentado, subjetivista, consumista e por que não dizer simplesmente confuso, como o nosso.

Precisamos preparar o terreno para uma tarefa indispensável: recuperar o discernimento como prática central da vida cristã.

##Isso me ajudou##

Quero recomendar dois livros que estou lendo e que estão me fazendo repensar muito sobre internet e sobre o momento cultural que vivemos.

O primeiro indico para todos irrestritamente:

Em A geração ansiosa Jonathan Haidt elabora a troca que a sociedade norte-americana e européia fez de uma infância orientada para o brincar, para uma infância orientada por smartphones. Para o autor esta troca coincide com o aumento vertiginoso de doenças mentais, especialmente ansiedade generalizada e depressão entre adolescentes e jovens. A proposta do autor é proteger as crianças e retardar o máximo a iniciação dos adolescentes no mundo das redes sociais. Adquira aqui: https://amzn.to/3KSfuH2

O segundo livro é para quem está interessado em entender o que estamos chamando de nova onda de romantismo.

Na sua obra As raízes do romantismo o historiador da ideias Isaiah Berlin oferece um panorama da ideias românticas do século XVIII e com isto demonstra como estas ideias continuam impactando a forma como pensamos hoje. Adquira aqui: https://amzn.to/45xb3Iq

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O texto de hoje é resultado de duas disciplinas de pós-graduação, cinco treinamentos sobre mídias sociais para igrejas, um projeto de pós-doutorado e de muitas leituras ao longo do ano. Eu acredito que você também pode aproveitar melhor tudo que leu, ouviu, pregou, ensinou e tratou ao longo da vida.

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