Teologia acadêmica ainda faz sentido?
Você que me acompanha por aqui ou nas redes sociais já deve ter percebido que alterno entre temas mais teológicos, incluindo insights de filosofia, temas pessoais e também outros de divulgação teológica, o que seria o meu lado influencer. Inclusive já reclamei por aqui que eu gostaria de mais parceiros luteranos sendo influencers de sentido — influencers sem sentido já tem um monte por ai, vai…
Esta alternância é, na verdade, uma luta interna. Como professor de teologia em uma faculdade que forma ministros para a igreja eu me divido entre funções de docente, burocrata e divulgador científico, mas também sou, pela minha formação pesquisador. Tem dias que eu acordo com o desejo de ter um só dos meus papéis. Gostaria de me dedicar a ser um pesquisador de Lutero ou do pietismo, ou até continuar meu tema de doutorado indo para a teologia pública. Outros dias eu quero gravar reels e dividir o que estudei com quem tem curiosidade e dúvidas. Minha história com o Bibotalk já me mostrou que há necessidade de divulgação de boa teologia e eu sei com o que posso contribuir.
Nessas horas de embate interno e dúvida sobre o futuro uma pergunta costuma vir de um jeito meio direto, como se a resposta devesse ser óbvia: “Pesquisar teologia e escrever artigos realmente ajuda?”
Essa pergunta me incomoda, admito, mas é uma questão justa. Com tantas urgências pessoais e da docência, ou mesmo com tantas outras demandas necessárias da igreja, é legítimo questionar se vale a pena gastar horas com pesquisa, bibliografia e notas de rodapé.
Essa inquietação aponta para uma crise. Uma crise de sentido. Não quero ser filosofo coach aqui — tipo, estoicismo de livraria de aeroporto. Não acredito naquela coisa de “você só precisa priorizar sua agenda de produtividade, bla, bla”. Mas, concordo com o Pondé, quando diz que os filósofos da antiguidade, inclusive os estóicos, não precisavam dar conta da sua própria vida, pois tinha escravos para fazer isso por eles.
Por outro lado eu acolho a crítica de Byung-Chul Han, em “A crise da narrativa”, de que a falta do ócio nos impede de produzir grandes pensamentos e grandes pensadores. Alio a isso ainda um problema do nosso tempo, o neoromantismo — essa postura de desejar ardentemente, ou no futuro ou no passado, um mundo ideal que deveria ser alcançado aqui, pelo menos no campo dos sentimentos. Esta visão de um subjetivismo estético — não estou falando de arte, em primeiro lugar, mas de percepções — impede que tratemos de problemas de fundo, temas de filosofia primeira, o que redunda em um abandono completo dos sistemas. Ser anti-sistema é o mal, tanto de liberais como de conservadores, do nosso tempo. Sem ócio e sem sistema, morre a reflexão profunda. Sobram os coaches filosóficos de livraria de aeroporto.
Se isso ocorre na teologia?
Não tenho dúvidas que sim. Infelizmente isto é fruto, na minha humilde e inútil leitura, de duas tendencias: uma é a eclesiástica, que se resume, ora ao estético, ora ao pragmático. A outra é a acadêmica, que se resume no distanciamento exacerbado da realidade, ou também do mesmo problema pragmático.
Explico. Nas minhas experiencias pastorais me dediquei a ser um pastor-teólogo. Trazer o máximo da teologia para o púlpito e o ensino. Era minha forma de tentar balancear a tendencia de tomar as decisões e guiar os caminhos teológicos da igreja com base nas percepções das pessoas. É o tal problema do subjetivismo, ou sendo um pouco mais conceitual, é um problema romântico.
Sempre me lembro de reuniões onde alguém cobrava que “fulana-de-tal não recebeu uma visita do pastor”. Interessantemente, a pessoa nunca havia manifestado a mim o desejo pela visita. E pra piorar tenho o meu lado autístico, que não me ajuda a ler nas entrelinhas.
Espera-se que o pastor, consultando sua palantir, oráculo de Delphos, Urin e Tumin, ou algum outro meio de vidência, consiga receber do alto alguma percepção espiritual ultra aguçada de que a fulana-de-tal precisa de uma visita.
É um problema estético, isto é, uma falha de percepção, que pode ser dos membros, mas também pode ser do pastor, que talvez não esteve atento a dor de uma de suas ovelhas. A empatia, assim como outros sentimentos morais, são muito importantes para o exercício pastoral, mas eles não são o critério de decisão teológica na condução do ensino.
Sobre o pragmatismo não preciso me delongar. São as decisões tomadas pelo critério do que dá resultado, especialmente numérico. Não sou ingênuo, números são indicadores importantes que precisam ser levados em conta. Mas em decisões teológicas o que importa é a fidelidade ao Evangelho, não o número de votos a favor ou contra.
Já o problema da academia não é muito diferente. O afastamento da academia em relação a igreja é semelhante ao da igreja em relação à teologia.
Demorei a entender isso. Por muito tempo, pensei que a produção científica fosse um luxo intelectual, algo que se faz na torre de marfim, distante da vida real. Mas, com o tempo, descobri que a escrita, quando feita com alma, é um ato de serviço.
Quando escrevemos, testamos nossas ideias, ouvimos críticas, refinamos argumentos e, de certa forma, oferecemos fundamentos sólidos para a missão. A teologia só permanece viva porque se coloca em diálogo. Ela só continua a respirar quando é questionada, reavaliada e compartilhada. O conhecimento não é um fim em si mesmo, mas um meio para que a fé seja mais profunda e a ação, mais intencional.
Por isso, a pós-graduação é tão vital. Um bom mestrado ou doutorado não serve apenas para um título que adorna a parede. É um espaço de formação rigorosa, onde aprendemos a pesquisar com profundidade e a escrever com clareza. É um lugar de encontro com outras vozes, outras mentes, que ampliam a nossa visão da fé e da vida, evitando que a gente se perca na nossa própria bolha. Ali, nossas certezas são desafiadas e, com isso, nossa fé é fortalecida.
No entanto, estudar e escrever sem publicar é como guardar uma luz debaixo da mesa. O que se aprende na academia e o que se reflete na quietude do gabinete precisam encontrar um caminho para a comunidade. Quando compartilhamos nossas pesquisas, a igreja e a academia são edificadas. O conhecimento só cumpre sua vocação quando circula e se torna acessível a todos.
Mas para isso alguém precisa pesquisar e publicar. Por isso tenho um anúncio para fazer a você que me acompanha
A primeira parte deste anúncio já era há muito esperada por mim. Talvez você se lembre que em 2023 defendi minha tese de doutorado na Alemanha. Relatei a jornada em vários textos aqui no Substack. Depois disso uma longa espera pela publicação da tese, que a princípio seria on-line, mas que graças a um convite do Stefan Jäger do Johanneum em Wuppertal se tornou um livro impresso por uma editora acadêmica. O Prof. Henning Wrogemann aceitou meu texto na coleção de Teologia Intercultural e agora, graças aos apoios da FLT, Gnadauer-Brasilien Mission e da AfET (associação de teólogos evangelicais da Alemanha) o livro impresso sairá muito em breve!
E para quem já pergunta se haverá uma versão em português, a resposta é sim! Você poderá curtir essa novidade em português em breve, pois a adaptação do texto está em curso e vai sair pela Mundo Cristão.
A segunda parte da novidade é inesperada para mim. Ano passado fui incentivado pela Brigitte Klemz a partir da minhas aulas na pós em pedagogia e teologia da FLT a estudar um autor do pietismo alemão chamado A. H. Niemeyer. Achei muito interessante a obra dele, mas não me julguei pronto pra isso.
Este ano novamente tive a oportunidade de lecionar para a equipe da escola Bom Amigo e o desafio de estudar Niemeyer voltou. Escrevi um projeto para a Franckesche Stiftung em Halle, onde Niemeyer foi diretor no século XVIII, e para minha surpresa fui aprovado em um pós-doc na Alemanha com bolsa.
Estou muito animado, pois a longa espera sem conseguir engajar numa nova pesquisa e sem conseguir tirar da gaveta o que eu tinha feito será compensada este ano.
Deus seja louvado!